
Sinto-me mais desinibido. Estranho, porém real, no estado da actual ditadura.
Na mesa, para além dos risos salutares, que tanto perturbam as almas mortas, vivas apenas na aparência, a discussão tomou lugar. Aqueles momentos que tanto aprecio, nos quais se dá lugar à reflexão, processo evolutivo do Homem. Algumas das intervenientes, pela primeira vez, ouviria falar em microfalos. Sensibilidade senti, a qual quase me levou a uma abertura espontânea, não fossem as cautelas geradas por experiências passadas. Este é um texto no qual os parágrafos evito, para não cessar a minha sessão de psicoterapia.
“O pénis pequeno” e os microfalos ainda são motivo de tabu. Os homens parecem ser avaliados pelo membro do qual são portadores, muitas das vezes apenas pela satisfação da visão. A verdade é que, não me enquadrando na primeira categoria, a segunda muito me diz. Assim, os pesadelos intensificados pelo desconforto da alma, iniciaram-se na minha pré-adolescência, nos terríveis balneários da disciplina de Educação Física. Tomar consciência de uma diferença, em termos de centímetros, que à humilhação – agora designada por “bullying” - me conduziu, durante anos, não foi tarefa fácil. De início, passados alguns anos, com coragem, o coração abri junto à minha mãe. Agora reconheço que essa teria sido a melhor altura para ter dito que sentia grande atracção por rapazes. Mas o receio de agressão, por parte do meu pai e humilhação sucessiva calaram-me. A melhor nutricionista/endocronologista acompanhou-me dissipando a minha mente com quimeras. De facto, em termos hormonais tudo estava normal mas tal não lhe permitia argumentar que o tamanho estava dentro dos parâmetros considerados normais… Recordo a primeira vez. Sim, a primeira experiência sexual, na qual aquela rapariga, quase desconhecida, se despiu, à minha frente e pediu: -”Agora f**e-me”. As evidências dos seus caracteres sexuais secundários despertaram em mim um apetite voraz pelo cumprimento do seu desejo. Porém ouvi: -”Mas a tua é mais pequena do que a do R.”. Se os fantasmas já pairavam em mim, o termo de comparação foi motivo de descontentamento prolongado, ainda hoje em mim existente. Senti que de nada adianta ser mais bonito, inteligente e até mesmo uma pessoa diferente. Pelo contrário, nas relações com os pares do mesmo sexo, as comparações não se faziam sentir. Questiono-me se nesta etapa da minha vida terei desenvolvido uma “homossexualidade adquirida”. Se por um lado os homens são motivo de prazer, em termos afectivos, face às minhas fragilidades, por outro nunca deixei de os associar a dotes por mim jamais adquiridos. Ainda tentei, na procura iludida a uma circuncisão, resolver parte do problema. Recordo o urologista, comentando para o colega: “tão pequena já tinha visto várias, em Coimbra mas não quanto ao diâmetro”.
A conversa continuou:
A: -”Já viste… Um homem assim deve viver sem procurar uma mulher, …sozinho”.
B: -”Um amigo viveu esse problema. Em EF não tomava banho com os colegas. Até que, segundo ele, houve uma idade em que tudo se desenvolveu”.
C: -”Ena, já viste… Estamos para aqui a rir, com os tamanhos e até podemos estar a magoar alguém com esse problema”.
As gargalhadas deram lugar a um assunto sério no qual apenas inferi estar abaixo da média portuguesa. Por entre as palavras, nas quais senti vontade em soltar o meu grito, pensei, acalmando a minha ansiedade: “ainda eles não sabem que têm um caso desses, aqui tão perto”. A verdade soltou-se das suas bocas, assim como o meu sentir. Pedaços de nós que nos acompanham até à próxima vida…